Escrito por Martin Cothran
Originalmente publicado no Classical Teacher, Spring 2007
http://www.memoriapress.com/articles/founding-fathers.html
Tradução para o Aristoi de Lucas Mafaldo Oliveira
Existe uma razão que move vários pais a ensinarem aos seus filhos sobre os homens que fundaram os Estados Unidos, e ela vai além de apenas familiarizá-los com o quem eles eram e o que eles fizeram. Mais do que apenas ensinar nossos filhos sobre estes homens, através de histórias e biografia de suas vidas, muitos de nós queremos que nossos filhos se tornem semelhantes a eles. Os pais fundadores possuíam duas características que os distinguiam dos outros homens do seu tempo – aliás, da maioria dos homens de qualquer tempo: sabedoria e virtude. São estas duas qualidades as que mais admiramos neles e as que mais gostaríamos de ver em nossos filhos. Mas, mais importante que admirar estes traços, deveríamos almejar entender como eles se tornaram assim.
A educação clássica dos fundadores
“Os americanos vêem os pais fundadores sobre um vácuo, isolados do solo que os nutriram”, diz Traci Lee Simmons, em seu livro “Climbing Parnassus: A new Apologia for Greek and Latin”. Para os fundadores, diz Simmons, estas virtudes viam principalmente de dois lugares: “o púlpito e a sala de aula”.
Já estamos familiarizados com a influência bíblica explícita na fundação dos Estados Unidos, mas estamos muito menos familiarizados com as influências clássicas nos fundadores – e como estas duas influências agiram em conjunto para moldar tanto a educação quanto o pensamento deles.
É um fato bem conhecido de que, no período colonial, predominavam pessoas letradas. “Um nativo americano que não sabe ler ou escrever”, diz John Adams, “é uma aparição tão rara… quanto um cometa ou um terremoto”. Por outro lado, não é um fato tão conhecido que os primeiros americanos com uma educação formal geralmente conheciam várias outras línguas além da sua própria.
A educação típica daquele tempo começava no que hoje chamamos de terceira série – mais ou menos aos oito anos. Os estudantes que, de fato, iam para a escola, tinham que aprender as gramáticas grega e latina e, depois, serem capazes de ler os historiadores latinos Tacitus e Lívio, os historiadores gregos Heródoto e Tucídides, e serem capazes de traduzir os versos latinos de Virgilio e Horácio. Era esperado que eles soubesses essas línguas bem o suficente para traduzir do original para o inglês e, depois, de volta para o original, em um tempo gramatical diferente. A Educação Clássica também enfatizava as sete artes liberais: Latim, lógica e retórica (o trivium) e também aritmética, geometria, astronomia e música ( o quadrivium).
Thomas Jefferson recebeu, muito cedo, treinamento em latim, grego e francês, do Reverendo William Douglas, um clérigo escocês. Aos quatorze anos, o pai de Jefferson morreu, e, seguindo o desejo expresso de seu pai, ele continuou sua educação com o Reverendo James Maury, que dirigia uma academia clássica. Depois de sair da academia de Douglas, Jefferson freqüentou o College of William and Mary, onde sua educação clássica prosseguiu em paralelo aos seus estudos de direito.
Quando Alexander Hamilton entrou no King’s College (agora chamado de Columbia University), em 1773, era esperado que ele já dominasse as gramáticas gregas e latinas, fosse capaz de ler três discursos de Cícero e a Eneida de Virgílio, ambos no original em latim, e ser capaz de traduzir os dez primeiros capítulos do Evangelho segundo João do grego para o latim.
Quando James Madison se inscreveu no College of New Jersey (agora, Princeton), era esperado que ele soubesse “escrever prosa em latim, traduzir Virgílio, Cícero e os evangelhos gregos e [possuir] um conhecimento comparável das gramáticas gregas e latinas”. Antes mesmo de entrar na faculdade, no entanto, ele já havia lido Virgílio, Horácio, Justiniano, Nepos, César, Tacitus, Lucrécio, Eutropius, Fedro, Heródoto, Tucídides e Platão.
Outras figuras-chaves na fundação dos Estados Unidos receberam uma educação semelhante, incluindo John Taylor of Caroline, John Tyler e George Rogers Clark, todos os quais estudaram os clássicos com o pregador escocês Donald Robertson.
É interessante observar que o estudo do Latim e do Grego – que é o que o termo “educação clássica” originalmente implicava – não era algo que eles aprendiam na faculdade, mas algo que era esperado que eles soubessem antes de entrar nela.
Estes homens não apenas tiveram que ler os clássicos na escola, eles os leram na vida adulta por prazer e pelos benefícios que tiravam do aprendizado. Hamilton aparentemente tinha uma propensão a copiar páginas e páginas de Plutarco e Demóstenes. John Adams copiava longas passagens de Salústio, o historiador romano. Caso você procure um pouco na internet, você encontrará um manuscrito de doze linhas à venda, na língua original do grego de Heródoto, pelas mãos de Adams. Isto lhe custará meros 6,300 dólares.
Os fundadores conheciam estes escritores e os citavam prolificamente. Suas cartas, particularmente, demonstravam uma ampla familiaridade com os autores clássicos. A correspondência entre os homens educados da época costumava ser recheada de citações clássicas, geralmente no original latino ou grego. Aliás, aparentemente, o uso de tais citações era tão generalizado que, algumas vezes, chegava a incomodar o destinatário: Jefferson usava tantas citações gregas em suas cartas para Adams – que, pessoalmente, tinha uma predileção pelo latim – que chegou a receber uma reclamação do amigo sobre isto em certa ocasião.
Aparentemente, não foi a primeira vez que Adams se mostrou reticente quanto às línguas clássicas. Quando ele era jovem, hoje sabemos, ele não era um estudioso muito entusiasmado, e resistia ao estudo do latim. No entanto, seu pai possuía um bom remédio para isso: ele o mandava cavar algumas valas, uma atividade que rapidamente reacendia o seu entusiasmo pelos estudos. Depois, ele chegou a amar o latim, e insistiu para que a mesma educação clássica fosse dada aos seus filhos: John Quincy (que depois se tornaria presidente, como seu pai) e Charles.
Vários dos fundadores, incluindo Adams, estudaram em Harvard. O único requisito acadêmico para ser admitido na Harvard University de 1640 era o seguinte: “Quando um estudioso for capaz de ler Cícero, ou outro autor clássico latino ex tempore, e escrever e recitar o verdadeiro latim, em prosa e em verso, e declinar perfeitamente os paradigmas dos nomes e verbos na língua grega, então ele pode ser admitido na faculdade, e nenhum pode requerer sua admissão antes de obter tal qualificação”.
Nada de testes ACT ou SAT. Nada de prova de redação. Nada da ação afirmativa. Apenas latim e grego.
[Nota do tradutor: e nós, brasileiros, poderíamos adicionar também: “Nada de vestibular.”]
Nos primeiros anos da colonização, também era esperado que os estudantes, de acordo com as regras da Harvard College, fossem capazes de traduzir o Antigo e o Novo Testamento, dos originais em grego e hebreu, para o latim. E não era apenas isto; veja outro requisito da Harvard daquela época: “Os estudiosos jamais devem utilizar sua língua materna, exceto em exercícios públicos de oratória ou em situações do tipo, onde sejam orientados a realizá-los em inglês”. Em outras palavras, com poucas exceções, os estudantes eram proibidos de utilizar o inglês em sala de aula e nos deveres escolares.
Algo disto certamente mudou até a época em que os fundadores começaram a freqüentá-la, mas não muita coisa: quando se tratava da educação clássica universitária, no período colonial, eles não faziam concessões.
Dos cinqüenta e cinco delegados da Convenção Constitucional, trinta deles possuíam uma graduação universitária, um número assombroso para a época. Mas, e aqueles que não possuíam o grau universitário, como George Washington? Eram eles, de alguma maneira, influenciados pela educação clássica? No caso de Washington, mesmo com pouca educação formal, ele possuía uma extrema admiração pelos pensadores clássicos. Existem registros que mostram que ele encomendou bustos de figuras como Cícero, que presumivelmente eram expostas em sua casa em Mt. Vernon. Ele também se preocupava com a cultura clássica o suficiente para fazer com que a peça de Joseph Addison sobre o jovem Cato (um estadista romano famoso) fosse apresentada para sua tropas no Valley Forge. Ele também insistiu em dar uma educação clássica ao seu enteado.
Mesmo os muitos que tinham pouquíssima educação formal costumavam possuir bastante conhecimento sobre as disciplinas clássicas. George Wythe, da Virgínia, que depois ficaria conhecido como o “Professor da Liberdade”, foi educado em casa por sua mãe, em uma região interiorana, e todos os seus contemporâneos reconheciam a perfeição do seu conhecimento do grego.
As Influências clássicas impregnavam as salas de aula, mas não se limitavam a elas. Mesmo o que os americanos ouviam do púlpito estava imbuído de referências e alusões clássicas. Os pastores da época tinham uma educação muitíssimo melhor que os de hoje, e eram os membros da comunidade que mais provavelmente haviam recebido uma educação clássica.
Não é incomum, nos dias de hoje, ouvir que os cristãos deveriam evitar a leitura dos autores pagãos da antiguidade. Esta é uma idéia que a geração dos fundadores – incluindo grandes pensadores cristãos como Cotton Mather e Jonathan Edwards – teria considerado simplesmente absurda. Além do fato de que os padres e pastores (ou aspirantes a estas vocações) eram os principais responsáveis pela condução da educação clássica, o estudo dos clássicos era considerado um componente essencial da formação do clero cristão. Na verdade, todos os grandes teólogos e pensadores cristãos, do início dos Estados Unidos, estavam imersos e saturados nos clássicos. Mais do que compatível, o estudo dos clássicos era absolutamente essencial para uma vocação cristã.
Foram principalmente os não-religiosos e os homens mais interessados nas possibilidades práticas da ciência do que com as realidades espirituais que tiverem uma opinião desfavorável da educação clássica; homens como Benjamim Franklin que, mesmo se tornando depois um deísta e depois um teísta (sem chegar a se tornar um cristão), sempre considerou que o estudo d as línguas clássicas eram um anacronismo.
Como os clássicos influenciaram o pensamento dos fundadores.
Se os fundadores estavam mergulhados no conhecimento do pensamento clássico, como isto afetou o pensamento deles sobre a nova nação? Primeiramente, isto inculcou neles o respeito pelas lições da história, lições que transpareciam em seus escritos e nos seus debates sobre como construir a República Americana. “Eu tenho apenas um lâmpada para guiar meus passos”, disse Patrick Henry, “e esta lâmpada é a experiência. Eu não conheço maneira de julgar o futuro, a não ser através do passado”.
Eles examinavam os anais dos antigos em busca de exemplos de governos que funcionaram bem – e também em busca dos que não funcionaram. Eles sabiam, muito antes que o filósofo George Santayana nascesse para dizê-lo, que “aqueles que não conhecem a história, estão condenados a repeti-la”.
“Estes homens”, diz Simmons, discutindo os debates da Filadélfia de 1787, “haviam lido e digerido Polibius, Aristóteles e Cícero, e eles usavam estes antigos luminares para elaborar e ilustrar suas idéias perante a assembléia… Estes debates, tão calorosos quanto eruditos, junto com os artigos d’O Federalista, estavam claramente repleto de sutis alusões clássicas – com as quais, Madison, Hamilton e Jay presumiam que os leitores estariam suficientemente familiarizados – e referências diretas às ligas – da Lícia, Acaia e Etólia – formadas pelos gregos antigos com o objetivo de alcançar segurança física e política.
Não apenas os artigos d’O Federalista estavam repletos de referências clássicas, mas os próprios pseudônimos escolhidos por cada escritor foram retirados de escritores do período clássico.
A educação clássica nos dias de hoje
Ser inspirado pelos grandes feitos dos grandes homens é nos dar a motivação para realizar feitos semelhantes. Para nos tornar grandes, é preciso começar por observar o que os outros grandes homens fizeram, para nos inspirarmos a fazermos, nós mesmo, o mesmo tipo de coisa. No entanto, enquanto atentar para estes grandes feitos é uma grande fonte de motivação, isto não é o suficiente para nos habilitar a realizar o que eles realizaram. Podemos admirá-los, mas não isto não vai necessariamente nos tornar semelhantes a eles. Para isto, mais que admirá-los, precisamos também fazer o que eles fizeram.
É tentador olhar para a educação destes grandes americanos e pensar que o que eles fizeram é muito difícil para os estudantes de hoje em dia – mas isto seria um erro gravíssimo. Sim, eles tiveram algumas vantagens que nós não temos; principalmente em termos de terem menos distrações, mas isto é algo que podemos controlar. E, na verdade, também temos vantagens que eles não tiveram: os recursos educacionais disponíveis aos estudantes coloniais, por exemplo, não apenas eram difíceis de encontrar, mas eram de uma qualidade imensamente inferior ao que temos hoje em dia.
Nós podemos, além disso, dizer que não temos a mesma firmeza, mas isso não é algo que eles trouxeram para a sua educação; antes, é um benefício que receberam dela.
A educação é o cultivo da sabedoria e da virtude. Ao decidir como transmitir isto aos nossos filhos, faríamos bem em observar como isso foi feito em um tempo onde sabedoria e virtude eram mais prevalentes do que nos nossos dias.
Olá:
Parabéns pelo site.
Sou a favor desse tipo de estudo.
Sou desestimulado pois não conhece ninguém que queria estudar latim comigo.
Só o fato desse artigo não ter sido comentado ainda já mostra o desinteresse pelo tema.
tenho um site simples, para passar, de forma simples e resumida algumas idéias importantes.
Vou acompanhar este site.
O meu blog é http://www.homemculto.wordpress.com
Paulo César.
Por: homemculto em Outubro 3, 2007
às 5:39 pm